Qualé a desse tal de… Night in the Woods

Demontower é mais um desses roguelikes com pixelart que estão em alta. É um hack’n’slash que lembra Diablo, só quem sem todos aqueles itens e ao invés de descer até o inferno, você sobe uma torre cheia de esqueletos, magos e monstros aleatórios, e tudo o que você consegue fazer é atacar e rolar. Nesse aspecto lembra um pouco Dark Souls, inclusive tendo referências ao jogo. Eu não queria mencionar Dark Souls, mas agora já foi… droga.

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Enfim, Demontower tem uma boa variedade de inimigos, vários chefes e uma quantidade considerável de fases, maior que muito jogo que você encontra no Steam hoje em dia. E é um jogo que a personagem principal de Night in The Woods, Mae, e por consequência a pessoa que está controlando ela, joga às vezes; normalmente antes de dormir, pra esquecer um pouco dos problemas e relaxar. Assim como você também pode jogar Night in The Woods pra relaxar, embora isso possa não funcionar tão bem dependendo do seu passado e de como a sua vida anda ultimamente.

No momento em que eu escrevo este texto, fazem aproximadamente 14 anos desde que eu saí da casa da minha mãe em uma cidade relativamente pequena pra estudar na capital. Então, quando eu vejo a Mae voltando pra casa dos pais depois de largar a faculdade, sem saber direito o que ela quer fazer da vida, é bem fácil me identificar com a personagem. Não se fala muito em como era a vida dela na faculdade, mas não é como se aquela vida importasse. No momento em que você volta pra casa dos pais, a sensação é de que o que aconteceu fora dali talvez não tenha acontecido. Você reencontra o seu quarto, os seus amigos e a velha sensação de segurança de ter os seus pais por perto. Mas, como é de se esperar, uma hora você acaba percebendo que o tempo passa e as coisas mudam.

Mas Mae não quer que as coisas mudem. Ela está constantemente lembrando do passado e reclamando de como a cidade está diferente. Ela está numa fase da vida em que ela não sabe bem o que quer, ainda não entende bem as responsabilidades da vida adulta e prefere fugir delas. A imaturidade da personagem é engraçadinha em alguns momentos mas irritante em outros, em especial nos casos em que essa imaturidade acaba machucando alguém.

Essa personalidade infantil e instável de Mae é contrastada com a da sua melhor amiga, Bea, que está tentando ser uma pessoa séria, uma adulta responsável com um emprego e contas pra pagar. Enquanto que do outro lado, Gregg, o seu melhor amigo, é um sujeito brincalhão que te chama pra quebrar coisas, “cometer crimes” e parece ser o extremo oposto de Bea, até que você percebe que até ele também está tentando manter um emprego e juntar dinheiro.

Conforme você vai interagindo com os personagens, você vai entendendo melhor cada um, alguns mais que outros dependendo das suas escolhas, às vezes de diálogo e às vezes naturalmente dentro do jogo, quando você escolhe passar tempo com um personagem ao invés de outro. Eu cheguei até a me sentir meio culpado por não ter dado atenção pra um ou outro personagem em certos momentos, mas a ideia é essa mesma: que Mae às vezes faça umas cagadas e fique frustrada e, por consequência, deixando o jogador frustrado, muitas vezes por perceber que se, fosse eu que estivesse ali, teria feito o mesmo.

Descrevendo o jogo assim, parece que eu estou falando de um desses adventures com foco só em escolhas de diálogo e alguns puzzles como os da Telltale, mas estranhamente Night in The Woods tem os controles de um jogo de plataforma, com uma visão lateral e inclusive o mesmo pulo triplo de Mario 64 pra você alcançar certos lugares. Mae consegue subir nos fios e nos telhados da cidade, algo que soa estranho mas que enfatiza a personalidade espontânea e infantil da personagem. E que soa um pouco menos estranho quando você lembra que ela é um gato… mas que volta a soar estranho quando se questiona se ela realmente é um gato, porque, naquele mundo, também existem gatos comuns, e as pessoas serem representadas como animais parece ser só um jeito de torná-los mais identificáveis e diversos uma vez que, desta forma, cor de pele e traços masculinos e femininos praticamente não existem. Bom, tem seu charme.

E esse gameplay “tradicional” comum acaba trazendo uma certa nostalgia e deixando o jogo mais “aconchegante”, que é o que se espera quando se volta para a casa dos pais. Night In The Woods começa te obrigando a fazer um pulo triplo pra passar por um obstáculo, te fazendo pensar que o gameplay talvez seja algo mais nostálgico, mas te derrubando logo em seguida e te mostrando que não é bem assim. Essa mistura de nostalgia com coisas novas é o ponto principal do jogo. Está no medo dos habitantes da cidade de deixarem que grandes corporações acabem com o comércio local, nas folhas caídas do outono em que se passa o jogo e no medo de Mae de aceitar que precisa crescer.

Eu sinto que Night In The Woods é um jogo que funciona melhor pra quem já passou por esse tipo de crise. Quando eu me irrito com a Mae, é porque eu estou me irritando comigo mesmo de uns anos atrás, as discussões de Mae com sua amiga sobre responsabilidade e sobre continuar num emprego que não te satisfaça são extremamente semelhantes a algumas que eu já tive. E por isso ele acaba tendo um peso a mais pra mim. Talvez não tenha pra você mas, de qualquer forma, no fim do dia você sempre pode jogar Demontower pra relaxar.

Tuba

Sobre

Arthur “Tuba” Zeferino é co-criador do site, programador e brother indie.

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